As péssimas condições dos hospitais psiquiátricos culminaram na década de 70 na Reforma Psiquiátrica que tomava como base reforma italiana encabeçada por Franco Basaglia. Em decorrência da Reforma, muitas mudanças foram conquistadas no modelo de assistência ao doente mental no país, eliminando gradualmente a internação excludente e sem resultados para uma modelo de rede de serviços territoriais de atenção psicossocial, privilegiando o convívio familiar como um direito do doente mental, o que não ocorria anteriormente, já que muitos dos internos eram literalmente abandonados pela família, seja de forma gradual, pois aos poucos vão se enfraquecendo os vínculos afetivos, ou abruptamente, quando simplesmente deixavam o parente internado e nunca mais apareciam.
A motivação inicial da Reforma Psiquiátrica é completamente válida, já que não era possível manter o tratamento aos doentes mentais da forma em que eram oferecidos. Entretanto, os rumos que tomou a reforma com o decorrer do tempo, sempre me deixaram algumas indagações: Até que ponto é válido eliminar a internação como forma de tratamento psiquiátrico? Existem casos psiquiátricos que realmente necessitam de internação? Eu acredito que sim. Obviamente não falo de internação nos moldes antigos, mas uma internação com reais fins terapêuticos. Como é conviver com uma pessoa em surto? Não me parece simples ou fácil estar com uma pessoa que em surto não saiba mais quem é você ou o que é ou não real. Resolvi escrever esse texto porque li uma entrevista com o escritor Ferreira Gullar na revista Veja . Na entrevista, entre outros assuntos, o escritor discorre sobre como era lidar com seus filhos em crise de esquizofrenia. Deixo a seguir um trecho da entrevista, que ao meu ver exemplifica bem o que estou tentando dizer:
Qual o pior momento na sua convivência com filhos esquizofrênicos?
Quando a pessoa entra em surto, ela pode se jogar pela janela. Meu filho, o Paulo, se jogou. Hoje ele anda mancando porque sofreu uma lesão na coluna. Ele conversava comigo, via televisão, brincava, lia meus poemas. Em surto, não tinha controle. Queria estrangular a empregada. Nessas horas, a única maneira é internar e medicar. Nesse estado, sem nenhum socorro, o esquizofrênico pode fazer qualquer coisa. A família pobre faz o quê, se não tem mais onde internar? Se mantiver a pessoa em casa, ela poderá tocar fogo em tudo, pegar uma faca e tentar assassinar o pai. Poderá fugir para a rua, desvairada. Essa política contra os hospitais psiquiátricos tem como resultado prático uma tragédia em que os ricos internam seus filhos em clínicas particulares e os pobres morrem na rua. Quando ouço alguém dizer que as famílias internam os filhos porque querem se ver livres deles, só posso pensar que essa pessoa gosta dos meus filhos mais do que eu. Nunca viu meu filho, mas ama meu filho mais do que eu. Absurdo. Você não sabe o que é uma família ter um filho esquizofrênico. Além do problema do tratamento, existe o desespero de não saber o que fazer. Os hospitais psiquiátricos continuam a existir porque os médicos sabem que não há outra saída. Não se interna um doente para que ele fique vinte anos lá dentro, mas sim três dias, três meses. Meus filhos nunca ficaram internados além do tempo necessário. Eles voltavam para casa normais. Era uma alegria. Nenhuma família quer ter seu filho preso (Revista Veja, 26/09/2012)
Em suma, creio que seja uma questão que ainda precisa ser reavaliada, pensada e quem sabe não surja uma nova reforma. Recomendo a leitura na integra da entrevista. As edições da revista podem ser acessadas no acervo online através do link: http://veja.abril.com.br/acervodigital/home.aspx, procurem pela edição do dia 26/09, a entrevista está nas páginas amarelas.
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