Profª Ms. Giseli R. Gouvêa*
A
chegada do segundo semestre do ano é um período muito angustiante para muitos
jovens que vão se inscrever em vestibulares e que precisam escolher uma
carreira ou profissão.
Escolher
é muito difícil, envolve ganhar por um lado e perder por outro. Escolher a
atividade a ser desempenhada como profissão ou mesmo conhecer algum tipo de
“vocação” é uma ação carregada de conteúdos que geram muita ansiedade e medo. Diante
de uma escolha sempre ficamos inseguros, duvidosos, sejam muitos ou poucos os
caminhos. Tal processo é mais evidente na adolescência, pois este é um período
em que, segundo Bohoslavsky (1971), emergem os problemas de ordem vocacional e
se observam os conflitos relativos ao acesso ao mundo adulto em termos
ocupacionais.
Com
isso, torna-se necessário conhecer bem as opções e mais ainda: conhecer bem a nós mesmos, o que realmente queremos, os conflitos e os fatores que
interferem em nossa decisão. Como a influência da família, e dos grupos aos quais pertencemos. Este é o papel do profissional especializado em Orientação Vocacional e/ou Profissional.
Este processo de escolha – a escolha profissional – tem vários objetivos, como:
obtenção de novos conhecimentos sobre o
mundo do trabalho, sobre as diversas carreiras e cursos existentes, sobre
os vestibulares, universidades e escolas técnicas, sobre a teoria e a prática
de um ofício, a condição da nossa personalidade para tomarmos uma decisão e,
principalmente, estimular a busca do autoconhecimento, visando identificar o que de fato esta influenciando nossa escolha.
Contudo,
os objetivos acima descritos consideram todo um processo a ser desenvolvido
junto ao orientando (pessoa que precisa decidir) e não somente um episódio de
aplicação de um teste que “definirá” a vocação do indivíduo. Essa nova
perspectiva da orientação profissional deriva de uma longa trajetória histórica
de teorias e conceitos a cerca da escolha profissional que são reflexos de
diferentes momentos da história da humanidade. Estudos mostram que desde o
final da Idade Média já havia interesse pelos talentos profissionais e pelas
descrições das profissões, o que levou ao desenvolvimento de vários conceitos e
técnicas referentes à orientação vocacional ao longo dos tempos. No final do
século XIX e início do século XX a orientação vocacional configura-se como
disciplina científica em Psicologia; neste período surgem os primeiros
escritórios de seleção e orientação profissional (1902, em Munich; 1908, em
Boston). Até 1950 a orientação e a seleção profissional estavam ligadas
diretamente à psicometria (testagens para medição da inteligência, habilidades e
capacidades) e à análise ocupacional (o que o individuo poderia fazer dentro
das habilidades medidas) com grande influência dos testes coletivos de
inteligência e interesse.
No
entanto, este contexto mudou: depois desse primeiro período, a visão psicodinâmica começa a influenciar as
teorias de orientação profissional, relacionando a escolha profissional com as
primeiras experiências infantis, tendo os impulsos e necessidades como
determinantes dessa escolha. Também nesse período surgem as teorias do desenvolvimento e da aprendizagem,
que consideram a escolha como um processo. Nesse sentido o indivíduo é
determinado por suas aptidões, pelas relações que estabelece com o meio, pela
sua história de recompensas e modelos profissionais, pelo autoconceito
formulado, pelas etapas evolutivas ao longo de seu desenvolvimento e por um
esquema de desenvolvimento intelectual.
Outro
modelo teórico usado para explicar o processo de escolha profissional foi o
modelo decisional, inicialmente
formulado no campo da economia. Tal modelo tem como princípio a maximização de
vantagens e minimização de desvantagens em relação às escolhas profissionais,
considerando aspectos externos ao indivíduo e também que este tem consciência
clara dos fatores envolvidos no processo de decisão.
Além
do conjunto de teorias citadas, chamadas de psicológicas, existem outros dois
grupos teóricos. O primeiro deles refere-se às teorias não psicológicas, que centram-se em aspectos externos ao
indivíduo, como os aspectos chamados acidentais
(que referem-se a alguma causa que foge ao controle do indivíduo), econômicos (que dependem da lei da
oferta e da procura, da classe sócio-econômica do indivíduo, do mercado e das
oportunidades) e sócio-culturais
(como a sexualização das profissões e a regionalização das carreiras). Como
contribuição, essas teorias consideram fatores importantes da realidade na qual
o indivíduo está inserido. Por último foram desenvolvidas as teorias gerais de
orientação profissional que tentam integrar as outras teorias considerando a
interação de fatores externos e internos ao indivíduo.
Entretanto,
destaca-se na segunda metade do século XX, Rodolfo
Bohoslavsky, autor argentino, que trouxe grandes contribuições para o campo
da orientação profissional. Para este teórico, os procedimentos de diagnóstico,
investigação, prevenção e solução da problemática vocacional podem ser de
competência do psicólogo, pedagogo, sociólogo, professor secundário, entre
outros. Porém, o diagnóstico e a solução de problemas que os indivíduos têm em
relação ao futuro enquanto estudantes e profissionais inseridos na sociedade
atual delimitam-se ao campo privativo de atuação do psicólogo, pois é o
profissional habilitado para entender e intervir em processos do
desenvolvimento humano, como por exemplo, os conflitos da fase da adolescência,
já citada acima. Para o adolescente que está diante de uma escolha, as
possibilidades não escolhidas são sentidas como perdas irreparáveis, modo de
sentir pertinente a uma fase delicada do desenvolvimento, na qual outras perdas
já estão sendo vivenciados (mudanças na idealização dos pais, perda do corpo
infantil e das formas infantis de relação, entre outras).
Neste
sentido, pode-se afirmar que a influência que o processo de escolha de uma profissão
terá na vida de um indivíduo e como afetará suas outras futuras decisões,
dependerá principalmente o modo em que poderão ser trabalhadas as perdas em
relação ao que deixou de escolher e aos ganhos que terá com sua escolha
profissional. Assim, devemos considerar e refletir sobre a extrema importância de
valorizar a realização da orientação profissional nas escolas, onde se
concentram grande contingente de adolescentes em momento de escolha que requer
uma tomada de decisão consciente e autônoma, propiciando ao adolescente
vivenciar de forma segura e equilibrada a passagem para um outro - novo,
desconhecido e empolgante - ciclo educativo.
Referências
BOHOSLAVSKY, R. (1971).
Orientação Vocacional: a estratégia clínica.Trad.
José Maria V. Bojart. São Paulo: Martins Fontes.
FERRETI, C. J. (1992). Uma nova proposta em Orientação
Profissional. Porto Alegre: Artes Médicas
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* Psicóloga graduada pela USP de Ribeirão Preto; Especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional; Mestre em Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem do Programa de Pós-graduação da Faculdade de Ciências da Unesp de Bauru. Trabalha com Psicologia clínica, educacional e como docente universitária.
Informaçoes e contato: gigouvea@gmail.com

Profª Ms. Giseli R. Gouvêa Parabéns belíssimo artigo.
ResponderExcluirMuito Obrigada Cristiane! Os textos procuram atender as demandas dos seguidores do blog também. Qualquer sugestão de tema é bem vinda! Abraços!
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