quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Orientação profissional: o que vou ser quando crescer?



Profª Ms. Giseli R. Gouvêa*


A chegada do segundo semestre do ano é um período muito angustiante para muitos jovens que vão se inscrever em vestibulares e que precisam escolher uma carreira ou profissão.
Escolher é muito difícil, envolve ganhar por um lado e perder por outro. Escolher a atividade a ser desempenhada como profissão ou mesmo conhecer algum tipo de “vocação” é uma ação carregada de conteúdos que geram muita ansiedade e medo. Diante de uma escolha sempre ficamos inseguros, duvidosos, sejam muitos ou poucos os caminhos. Tal processo é mais evidente na adolescência, pois este é um período em que, segundo Bohoslavsky (1971), emergem os problemas de ordem vocacional e se observam os conflitos relativos ao acesso ao mundo adulto em termos ocupacionais.
Com isso, torna-se necessário conhecer bem as opções e mais ainda: conhecer bem a nós mesmos, o que realmente queremos, os conflitos e os fatores que interferem em nossa decisão. Como a influência da família, e dos grupos aos quais pertencemos. Este é o papel do profissional especializado em Orientação Vocacional e/ou Profissional. Este processo de escolha – a escolha profissional – tem vários objetivos, como: obtenção de novos conhecimentos sobre o  mundo do trabalho, sobre as diversas carreiras e cursos existentes, sobre os vestibulares, universidades e escolas técnicas, sobre a teoria e a prática de um ofício, a condição da nossa personalidade para tomarmos uma decisão e, principalmente, estimular a busca do autoconhecimento,  visando identificar o que de fato esta influenciando nossa escolha.
Contudo, os objetivos acima descritos consideram todo um processo a ser desenvolvido junto ao orientando (pessoa que precisa decidir) e não somente um episódio de aplicação de um teste que “definirá” a vocação do indivíduo. Essa nova perspectiva da orientação profissional deriva de uma longa trajetória histórica de teorias e conceitos a cerca da escolha profissional que são reflexos de diferentes momentos da história da humanidade. Estudos mostram que desde o final da Idade Média já havia interesse pelos talentos profissionais e pelas descrições das profissões, o que levou ao desenvolvimento de vários conceitos e técnicas referentes à orientação vocacional ao longo dos tempos. No final do século XIX e início do século XX a orientação vocacional configura-se como disciplina científica em Psicologia; neste período surgem os primeiros escritórios de seleção e orientação profissional (1902, em Munich; 1908, em Boston). Até 1950 a orientação e a seleção profissional estavam ligadas diretamente à psicometria (testagens para medição da inteligência, habilidades e capacidades) e à análise ocupacional (o que o individuo poderia fazer dentro das habilidades medidas) com grande influência dos testes coletivos de inteligência e interesse.
No entanto, este contexto mudou: depois desse primeiro período, a visão psicodinâmica começa a influenciar as teorias de orientação profissional, relacionando a escolha profissional com as primeiras experiências infantis, tendo os impulsos e necessidades como determinantes dessa escolha. Também nesse período surgem as teorias do desenvolvimento e da aprendizagem, que consideram a escolha como um processo. Nesse sentido o indivíduo é determinado por suas aptidões, pelas relações que estabelece com o meio, pela sua história de recompensas e modelos profissionais, pelo autoconceito formulado, pelas etapas evolutivas ao longo de seu desenvolvimento e por um esquema de desenvolvimento intelectual.
Outro modelo teórico usado para explicar o processo de escolha profissional foi o modelo decisional, inicialmente formulado no campo da economia. Tal modelo tem como princípio a maximização de vantagens e minimização de desvantagens em relação às escolhas profissionais, considerando aspectos externos ao indivíduo e também que este tem consciência clara dos fatores envolvidos no processo de decisão.
Além do conjunto de teorias citadas, chamadas de psicológicas, existem outros dois grupos teóricos. O primeiro deles refere-se às teorias não psicológicas, que centram-se em aspectos externos ao indivíduo, como os aspectos chamados acidentais (que referem-se a alguma causa que foge ao controle do indivíduo), econômicos (que dependem da lei da oferta e da procura, da classe sócio-econômica do indivíduo, do mercado e das oportunidades) e sócio-culturais (como a sexualização das profissões e a regionalização das carreiras). Como contribuição, essas teorias consideram fatores importantes da realidade na qual o indivíduo está inserido. Por último foram desenvolvidas as teorias gerais de orientação profissional que tentam integrar as outras teorias considerando a interação de fatores externos e internos ao indivíduo.
Entretanto, destaca-se na segunda metade do século XX, Rodolfo Bohoslavsky, autor argentino, que trouxe grandes contribuições para o campo da orientação profissional. Para este teórico, os procedimentos de diagnóstico, investigação, prevenção e solução da problemática vocacional podem ser de competência do psicólogo, pedagogo, sociólogo, professor secundário, entre outros. Porém, o diagnóstico e a solução de problemas que os indivíduos têm em relação ao futuro enquanto estudantes e profissionais inseridos na sociedade atual delimitam-se ao campo privativo de atuação do psicólogo, pois é o profissional habilitado para entender e intervir em processos do desenvolvimento humano, como por exemplo, os conflitos da fase da adolescência, já citada acima. Para o adolescente que está diante de uma escolha, as possibilidades não escolhidas são sentidas como perdas irreparáveis, modo de sentir pertinente a uma fase delicada do desenvolvimento, na qual outras perdas já estão sendo vivenciados (mudanças na idealização dos pais, perda do corpo infantil e das formas infantis de relação, entre outras).
Neste sentido, pode-se afirmar que a influência que o processo de escolha de uma profissão terá na vida de um indivíduo e como afetará suas outras futuras decisões, dependerá principalmente o modo em que poderão ser trabalhadas as perdas em relação ao que deixou de escolher e aos ganhos que terá com sua escolha profissional. Assim, devemos considerar e refletir sobre a extrema importância de valorizar a realização da orientação profissional nas escolas, onde se concentram grande contingente de adolescentes em momento de escolha que requer uma tomada de decisão consciente e autônoma, propiciando ao adolescente vivenciar de forma segura e equilibrada a passagem para um outro - novo, desconhecido e empolgante - ciclo educativo.  

Referências
BOHOSLAVSKY, R. (1971).  Orientação Vocacional: a estratégia clínica.Trad. José Maria V. Bojart. São Paulo: Martins Fontes.
FERRETI, C. J. (1992). Uma nova proposta em Orientação Profissional. Porto Alegre: Artes Médicas
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Psicóloga graduada pela USP de Ribeirão Preto; Especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional; Mestre em Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem do Programa de Pós-graduação da Faculdade de Ciências da Unesp de Bauru. Trabalha com Psicologia clínica, educacional e como docente universitária.

Informaçoes e contato:  gigouvea@gmail.com

2 comentários:

  1. Profª Ms. Giseli R. Gouvêa Parabéns belíssimo artigo.

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  2. Muito Obrigada Cristiane! Os textos procuram atender as demandas dos seguidores do blog também. Qualquer sugestão de tema é bem vinda! Abraços!

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