quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Sofrimento psíquico e ideação suicida


"Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
E esperam que eu cante como antes
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
Mas um dia eu consigo existir e vou voar pelo caminho mais bonito"

(Clarisse, Legião Urbana) 




Segundo notícia no site da Folha de São Paulo, publicada no dia 10/09/2012  1 milhão de pessoas se suicidam no mundo segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).  Destaca ainda que o problema está se agravando e já se tornou um problema de saúde pública. Mas porque algumas pessoas tiram a própria vida?
O suicídio pode ser entendido como o  ato intencional de tirar a própria vida,  e esta associado a  momentos de intenso sofrimento psíquico, nos quais podem preponderar os sentimentos de desesperança e solidão, nestes momentos a pessoa pode se perceber  sem recursos para lidar com as situações de crise. As crises podem ser divididas entre crises circunstanciais ou crises de desenvolvimento. As crises de desenvolvimento são tipicas das transições entre as fases do desenvolvimento, tais como na adolescência, ou a entrada na velhice, momentos nos quais muitas pessoas podem apresentar dificuldades de adaptação a estas novas fases. Já as crises circunstanciais estão relacionadas a eventos imprevisíveis e incontroláveis na vida do indivíduo, tais como a morte de alguém querido, a perda de um emprego, grandes prejuízos financeiros  ou outro evento que a pessoa interprete como muito doloroso.
O  suicídio está  atrelado a contextos em que a pessoa vive intenso sofrimento ocasionado por fontes estressoras, excesso de eventos punitivos e grande aversividade, ou seja, trata-se de um comportamento de fuga ou esquiva de situações que o individuo considera intolerável. Dito de outra forma, os indivíduos que tentam se suicidar parecem vivenciar as crises em suas vidas como sendo insuportáveis e  avaliam que seus recursos pessoais (desesperança) e sociais (solidão, incompreensão) para suportá-las fracassam, e por isso  tendem a encontrar na morte a única maneira de cessar seu sofrimento. O suicídio ou a tentativa de suicídio se relaciona então com a  história de vida de cada pessoa, com sua forma particular de lidar com os problemas e adversidades.
Além da história de vida outros fatores comumente associados ao suicídio são o alcoolismo, depressão, bipolaridade, tendencias a impulsividade e agressividade, condições clínicas incapacitantes e dolorosas, dinâmica familiar conturbada. 
Embora o suicídio envolva diversas questões sociais, culturais, genéticas, filosofias de vida, os estudos mostram que o transtorno mental é um fator que propicia o indivíduo a tentativas de suicídio quando associados a outros fatores.  Estima-se  que o risco de suicídio aumenta mais de 20 vezes em indivíduos com episódio depressivo maior, e é ainda maior em sujeitos com comorbidade com outros transtornos psiquiátricos ou doenças clínicas.

A literatura aponta ainda fatores que podem proteger as pessoas de ocorrência de suicídios, dentre eles destacam-se: 
  • Vivenciar bons vínculos afetivos (amigos, estar casado, ter parceiro fixo, ter filhos)
  • Fazer parte de grupos de pessoas em que se sintam acolhidos e amados (grupo de amigos, grupos religiosos, clubes)
  • Pessoas que apresentam envolvimento religioso aparecem em menor número nas taxas de suicídio, 
  • Práticas culturais que estimulam o diálogo entre os amigos, familiares,que propiciem o falar sobre os sentimentos de tristeza ou desesperança,  que aceitam as mudanças de opinião, que ensinam a solicitar ajuda para resolver os problemas, que melhoraram a capacidade de resolver problemas  parecem ser protetivas quanto a ocorrência de suicídio.
Nota-se deste modo que a compreensão do suicídio envolve a compreensão de muitos aspectos da vida de uma pessoa, ou seja, compreender sua própria história de vida e seus recursos para lidar com situações de crise, seu contexto familiar e social, e  ainda a visão que a sociedade tem sobre o fenômeno do suicídio, seus mitos e valores. Para auxiliar nesse sentido analisemos alguns achados sobre as pessoas que cometeram suicídio:
  • mais da metade das pessoas que cometem suicídio nunca haviam tentado antes;
  • mais da metade das pessoas que cometeram suicídio nunca haviam procurado por profissionais da saúde mental;
  • familiares e amigos  relataram em pesquisa que o parente que se suicidou apresentava transtornos de humor (em mais de 90% dos casos)  entre eles depressão grave, dependência do álcool e esquizofrenia;
  • mais da metade das pessoas que cometem suicídio haviam comunicado sua intenção a parentes ou amigos próximos;
  • boa parte dos suicidas haviam feito consulta médica nos seis meses anteriores ao suicídio, muitos tinham procurado ajuda medica no mês anterior à morte. 
Os achados acima descritos permitem quebrar com alguns mitos que muito prejudicam os familiares e amigos ao ajudar previamente uma pessoa que esta com ideação suicida. É comum ouvir dizer que as pessoas que vão realmente se matar não ficam avisando, os dados indicam que muitos haviam comentado com parentes e amigos. É comum ouvir dizer que as pessoas que cometem suicídio são covardes, talvez elas estejam com algum transtorno de humor ou outra condição médica que não foi diagnosticada ou não se sentiu acolhida para comentar. Muitas pessoas que cometem suicídio não foram buscar ajuda de um profissional da saúde mental ou foram pouco antes de tentar o ato letal, isso pode indicar que foram buscar ajuda quando seu sofrimento era intenso demais, ou seja, não se sentiram encorajadas a buscar ajuda quando o problema estava menos sério. 
Talvez seja interessante destacar que o fenômeno de suicídio pode ser classificado em três estágios, a ideação suicida, a tentativa de suicídio e o suicídio consumado.

Ideação suicida: são os primeiros sinais da intenção suicida, a pessoa relata ter pensamentos relacionados ao suicídio, mas não há planejamento.
Tentativa de suicídio: trata-se das tentativas não letais, com medicamentos ou outras substâncias toxicas, mas podem ser com objetos cortantes, pontiagudos, armas de fogo, as pessoas que tentam suicídio costumam dizer que não tinham certeza se o que estavam fazendo de fato tiraria-lhe a vida. 
Suicídio consumado: trata-se de quando a tentativa foi bem sucedida. 

O atendimento clínico vai levar em consideração o momento ou fase que a pessoa está vivendo. A intervenção em crise, levará em consideração o momento de desesperança e confusão do cliente, visando ativar seus recursos pessoais e sociais (amigos, família) para ajudá-lo a vivenciar o momento de estresse excessivo. Quando maior a demora em procurar ajuda nesses momentos, maior a chance de se consumar o suicídio. Geralmente o tratamento psicoterápico é acompanhado de medicação prescrita por um psiquiatra, para somente então com o processo terapêutico auxiliar a pessoa na aquisição de estratégias de resolução de problemas e enfrentamento. A intervenção com as pessoas que apresentam tentativas de suicídio extrapolam o ambiente físico da clínica, devendo ocorrer também em outros centros de apoio tais como hospitais e ambulatórios emergenciais. 

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