domingo, 23 de setembro de 2012

Pais que estressam

A adolescência é culturalmente vista como um período difícil para o jovem e sua família, pois pressupõe-se que todos os adolescentes serão rebeldes e de antemão os pais se preparam com ansiedade e  expectativas negativas para esta etapa do desenvolvimento dos filhos. Trata-se de um momento de  muita insegurança para os  pais, que se perguntam frequentemente sobre a educação dada aos filhos.
Durante a adolescência o indivíduo vai gradativamente deixar o convívio familiar em busca de convívio com grupos de iguais, pois deseja experimentar novas vivências, novas formas de relacionamentos, normalmente  em grupos que tem práticas culturais distintas das famílias, e próximas às que ele valoriza naquele momento da vida. Além disso, as próprias mudanças corporais advindas da puberdade farão com que seu corpo e mente se despertem para temas relacionados à sexualidade. A adolescência é um período dificil para quem o vivência, já que  a sociedade  ora o trata como criança ora como adulto, deixando-os confusos sobre o que podem ou não fazer. Soma-se ainda a  insegurança em relação aos grupos, a ser aceito em uma determinada turma e não em outra, sem contar à descoberta do amor, o primeiro beijo, a primeira transa, a vaidade, as primeiras decepções amorosas. Tudo isso configura a adolescência como uma fase de grandes descobertas e o adolescente pode ficar mais vulnerável a mudanças de humor e comportamento. Em alguns momentos o adolescente se sentirá autônomo para tomar suas próprias decisões, momento em que  rejeitará o apoio dos pais (encarado muitas vezes como intromissão e invasão da vida privada) e em outros desejará necessitará voltar para o colo dos pais em busca de apoio e proteção, momento em que os pais devem estar prontos para acolhê-los em suas dúvidas e ajudá-los a desenvolver as habilidades necessárias para viver uma vida adulta saudável.
Ver os filhos se recusando a sair com eles, escolher amigos que não são do seu agrado, começar a paquerar, ser paquerado, notar que o adolescente esta descobrindo o  amar, namorar, ficar, transar, faz com que alguns pais se sintam demasiadamente inseguros e lancem mão de estratégias de supervisão estressantes para com os filhos adolescentes, aumentando ainda mais os  conflitos e os distancia do convívio familiar.

  À ocorrência de falhas no processo de supervisão,Gomide (2003) denomina monitoria negativa: os pais buscam o controle por meio de pressão excessiva e apoquentação por questões triviais. Nesse modelo de controle de comportamento do filho, os pais exageram na vigilância ou fiscalização, repetindo inúmeras vezes certas instruções, gerando um tipo de supervisão estressante. Além disso, é um indicador de desconfiança, conduzindo à falta de diálogo e à invasão de privacidade, o que acaba incitando o filho a cometer atos escondidos e a mentir. Em verdade, não há aqui um adequado estabelecimento de regras, pois os pais repetem ordens, de forma irritada, que, por sua vez, não são ouvidas nem cumpridas pelo filho, além de não haver conseqüência para a desobediência constante. Esse controle excessivo sobre o adolescente, segundo Petit, Laird, Dodge, Bates e Criss (2001), afeta seu  desenvolvimento, impede a formação da autonomia, autodirecionamento e mantém o jovem dependente dos pais. Segundo esses autores, a atitude hostil, intrusiva e exigente por parte dos pais, a manipulação emocional correlata e a repressão da comunicação do filho são características típicas da forma negativa de controle dos pais sobre seu filho. Na pesquisa dos autores acima citados, tal prática educativa está associada a altos níveis de ansiedade, depressão e delinqüência dos adolescentes. (CARVALHO E GOMIDE, 2005).

As práticas parentais baseadas na supervisão estressante, que também pode ser chamada de superproteção , impedem que os filhos adolescentes exerçam sua autonomia de pensamento, que aprendam como os erros, dificultando o a aprendizagem de habilidades de resolução de problemas e gerando insegurança em se expor a situações novas, que podem passar  a ser vivenciadas com muita ansiedade. Alem disso, faz com que enxerguem os pais como  pessoas que não lhes compreendem, que não confiam neles e que lhes privam de liberdade.
Em muitos casos, os filhos de pais superprotetores (ou com supervisão estressante) sentem necessidade de mentir, de fazer coisas escondido, de desafiar os pais como forma de exercer sua liberdade, e o fazem através de brigas, pela coerção ou manipulação emocional (dizer que odeia, fazer greve de fome, etc), outros ficam resignados, tristes, deprimidos por não conseguir expressar seus sentimentos aos pais. Nos dois casos podem aumentar os conflitos  entre pais e filhos, o que por sua vez,  faz com que os pais fiquem ainda mais inseguros, e supervisionem ainda mais os filhos,  perpetuando o ciclo. Adolescentes que aprendem a mentir, a agredir os pais e outras autoridades, acabam sendo rechaçados por pessoas que apreciam bons comportamentos, o que os impele para grupos com as mesmas características, pois seus "maus-comportamentos" serão bem vistos e admirados por estes. 
Considerando que as práticas parentais estressantes podem influenciar no jeito do indivíduo lidar com a adolescência  talvez seja importante que os pais, em vez de simplesmente dizer que é um fase, algo que vai passar, ou atribuir ao adolescente  a "culpa" pelo que está vivenciando, olhem com cuidado  para a própria prática educativa e averiguem  se não estão sufocando seu filhos, se conseguem estabelecer um diálogo efetivo, no qual o adolescente realmente se sinta ajudado e confortado em suas dúvidas sobre os relacionamentos interpessoais, sobre o futuro, sobre si mesmo. 

CARVALHO, Maria Cristina Neiva de  and  GOMIDE, Paula Inez Cunha. Práticas educativas parentais em famílias de adolescentes em conflito com a lei. Estud. psicol. (Campinas) [online]. 2005, vol.22, n.3 [cited  2012-09-23], pp. 263-275 . Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-166X2005000300005&lng=en&nrm=iso>. ISSN 0103-166X.  http://dx.doi.org/10.1590/S0103-166X2005000300005.

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