Giseli R. Gouvea*, Jurandyr de Oliveira** e Maiara M. Brum **
Situações difíceis ou no mínimo
complicadas todas as pessoas enfrentam no decorrer da vida. Mortes, separações, gravidez
indesejada, conflitos nos mais diversos tipos de relacionamento, podem disparar
uma série de sentimentos negativos que
muita vezes geram fortes desequilíbrios emocionais, em especial nas crianças pequenas.
Para que as pessoas se tornem adultos com boa capacidade de ajustes emocionais a educação emocional se faz necessária desde muito cedo. Muitas vezes os adultos consideram as crianças imaturas demais para determinados assuntos, entretanto, há de se considerar que pensar e sentir são constituintes do processo de desenvolvimento humano, ou seja, a criança desde muito pequena percebe o mundo ao seu redor e isso pode gerar sentimentos que ela tenha necessidade de compreender e externalizar. Como são os adultos os responsáveis pela mediação entre o mundo e a criança estes assumem papel primordial para a aquisição da correspondência entre o pensar e o sentir.
Para que as pessoas se tornem adultos com boa capacidade de ajustes emocionais a educação emocional se faz necessária desde muito cedo. Muitas vezes os adultos consideram as crianças imaturas demais para determinados assuntos, entretanto, há de se considerar que pensar e sentir são constituintes do processo de desenvolvimento humano, ou seja, a criança desde muito pequena percebe o mundo ao seu redor e isso pode gerar sentimentos que ela tenha necessidade de compreender e externalizar. Como são os adultos os responsáveis pela mediação entre o mundo e a criança estes assumem papel primordial para a aquisição da correspondência entre o pensar e o sentir.
A dificuldade dos adultos em lidar
com questionamentos infantis sobre determinados assuntos, tais
como sexualidade humana e sobre a morte
e o morrer pode refletir a carência dos próprios pais e cuidadores em tratar das emoções ou temas
que socialmente são consideradas tabus, ou ainda, um desconhecimento sobre o
processo de desenvolvimento infantil, como ao considerar o assunto
impróprio para a criança e negar-lhes qualquer informação.
De um modo geral, uma atitude imediata
do adulto é camuflar a resposta com a intenção de proteger a criança de uma
verdade que considera incompreensível ou intolerável para um ser com tão pouco
tempo de vida. Neste caso negligencia-se o direito de participação da criança
com frases como: “Fulano, vai já pro quarto que isso é assunto de
gente grande!”.
Embora seja uma prática parental comum, é necessário considerar que uma das
características do pensamento infantil é a predisposição para fantasiar (daí
a existência e a importância dos contos de fada, e do contar histórias), pensar alegoricamente, o que permite a ela
compreender situações e se adaptar, e que a resposta não dita, mentida ou a
falta de explicação gera uma dificuldade em pensar no que está ocorrendo e um
vazio na compreensão do sentimento vivenciado, pois a criança percebe a discrepância
entre o que lhe foi dito e o que tem presenciado, e pode ficar sem recursos pessoais para elaborar
adequadamente a situação.
As crianças, ao notarem a tristeza dos
pais, as brigas, a perda de algo ou alguém querido, entre outros temas com o
qual entrou em contato “pela metade”, pode começar a preencher essas faltas
de informações precisas através da elaboração de pensamentos fantasiosos
que, na maioria das vezes, seguem dois extremos: ou são muito melhores do que a
realidade (negação) ou muito piores (catastrofização).
As possíveis consequências negativas
do uso contínuo de tais processos fantasiosos é que podem se tornar adultos com dificuldade de encarar situações de
frustração ou de grande adversidade, já que não desenvolveram habilidades suficientes para lidar com esses tipos de situações, passando a negar a realidade, e em casos mais severos rompendo com a mesma.
A mentira, o não deixar a criança
participar ativamente dos conflitos familiares também pode ocasionar a quebra dos modelos parentais pela falta de
confiança da criança em relação aos adultos envolvidos, e como consequências
negativas pode-se destacar a repressão de sentimentos e depressão infantil,
introspecção exagerada (não falar de seus problemas), dificuldades em se
relacionar socialmente e até, posteriormente, o uso e dependência química.
Mas o que fazer quando uma
criança dirige-se aos
pais ou cuidadores e faz perguntas do tipo: Como é que meu irmãozinho entrou na sua barriga? Por quê o papai não
dorme mais em casa? O vovô vai morrer?
O vovô não vai mais voltar do céu?
Diante das possibilidades negativas de uma vivência mal elaborada torna-se indispensável compreender que a sensibilidade infantil para as emoções deve ser bem assistida pelos adultos que a educam, pois atua na formação da personalidade como um princípio de discernimento para aquisição dos valores pessoais e sociais. Em outras palavras, aumenta-se a possibilidade da criança se tornar um adulto capaz de lidar com a realidade, mesmo quando esta marcada por eventos negativos.
Entende-se que as famosas perguntas
“inconvenientes” das crianças servem para beneficiar o desenvolvimento infantil
e a preparação da criança para aprender a se comportar (desenvolver
habilidades) em ocorrências futuras. Por este motivo compartilhar sentimentos com a criança
fará com que sua auto-estima (conceito de si mesma) seja melhorada, pois ela se
sentirá muito importante em estar-lhe
sendo confiado “um segredo”, ou um “assunto de gente grande”. Mesmo que isso a
deixe momentaneamente triste, revoltada ou aborrecida diante da resposta que os pais ou cuidadores lhe deram, neste caso, cabe ao adulto conversar sobre, fazer uma reflexão sobre os pensamentos e sentimentos
que a criança apresentar. Cabe lembrar que se a criança perguntou é porque ela já tem
alguma noção sobre o que esta acontecendo, e precisa de mais informações para
compreender o que esta se passando, é ingenuidade dos pais acreditarem que estão poupando os filhos de assuntos impróprios, o que podem estar fazendo na verdade, é fugindo da responsabilidade de enfrentar seus próprios medos e "tabus" ao tocar em assuntos que eles consideram delicados ou constrangedores. Deste modo, é importante que o adulto ou
cuidador procure se conhecer melhor e aprender a falar sobre o que ainda não sabe ou não consegue, e que seja específico em sua resposta para com a criança, respondendo somente aquilo que a criança
perguntar. Se por um lado não é adequado negar-lhe a verdade, por outro, não é
oportuno sobrecarregá-la com informações que ela não solicitou, nestes
momentos, caberá aos adultos ter bom discernimento para respeitar os limites da
criança.
As crianças mais novinhas podem
necessitar de algum recurso para melhor visualizar a situação ou até mesmo para
facilitar a missão daqueles adultos com dificuldade em dialogar. A utilização
de brinquedos e outros recursos lúdicos e didáticos (leia também a sugestão da série Quando me sinto e do livro Atividades para o desenvolvimento da inteligência emocional) que exemplifiquem o que está acontecendo,
como a dramatização e o teatrinho, pois são estratégias que
fazem a criança entender o assunto brincando.
Conversar sobre o que encenaram, deixando
a criança se expressar, permite que a relação entre criança e cuidadores ganhe força,
e seja marcada pelo respeito aos pequenos, aumentando a probabilidade dos problemas psicológicos infantis serem evitados.
Caso os pais e cuidadores percebam que
a criança esta apresentando grandes alterações de comportamento (agitação, sono
irregular, irritabilidade, medo excessivo) vale a pena redobrar a atenção e até
mesmo procurar por um psicólogo para avaliação e orientações à família sobre como lidar com os momentos de instabilidade emocional dos pequenos.
* Profa. Ms. Giseli
Renata Gouvêa
CRP 06/65058
Psicóloga – USP,
Ribeirão Preto
Psicopedagoga clínica e institucional – Faculdade
Internacional de Curitiba, FACINTER
Mestre em Psicologia
do Desenvolvimento e da Aprendizagem – Faculdade de Ciências, UNESP
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