quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Lidando com os sentimentos: Luto, perdas e danos


Quando pensamos em perda, danos e luto, normalmente nos referimos à morte de um ente querido, mas o fim de um relacionamento amoroso, a perda de um emprego, a percepção de que os sonhos e metas desejadas não se realizarão,  a perda de uma parte do corpo, a perda de status social por falência e o recebimento do diagnóstico de uma doença grave  também se configuram em processos de luto.
Pode-se dizer  que o  luto faz parte da vida, e esta associado a laços afetivos intensos, nesse sentido só vive o luto quem é capaz de amar intensamente, de viver laços afetivos significativos. Perdas, danos e luto embora estejam dentre as  vivências mais difíceis do desenvolvimento humano  acontecem desde a mais tenra idade. Um exemplo não associado à morte  é o final de um relacionamento amoroso, no qual é comum os envolvidos entrarem num processo de questionamento sobre o porquê do seu fim. Inicia-se um processo de culpabilização do outro e de si mesmo, mas com o tempo e com reflexões sobre o ocorrido, o casal e também seus filhos podem concluir que a separação foi o melhor para todos, que a qualidade de vida da família pode aumentar por não estarem vivenciando conflitos frequentes.  A princípio pode haver dificuldades em aceitar os novos papéis e a nova organização familiar, mas se o processo for bem vivenciado, a família conseguirá se reestruturar.
Um outro exemplo é o aumento da independência dos filhos, os pais podem viver um processo de luto por se sentirem menos importantes na vida deles, notam que os filhos tomam as decisões sozinhos e que nem sempre estas serão condizentes com o que desejaram ou planejaram. Trata-se do fim das expectativas idealizadas e o início da aceitação do outro como um ser autônomo e independente.  É comum ser referir a este momento da vida como a “síndrome do ninho vazio”.
Embora faça parte do desenvolvimento humano, as perdas, danos e luto geram momentos de grande inquietude e sofrimento, marcados por dificuldades de aceitação do ocorrido, e culpabilização real ou irreal pelo que aconteceu.  A  raiva, tristeza, melancolia,  sentimentos de impotência e insegurança, são sentimentos comuns nesse momento,  e  devem ser aceitos como parte do processo de elaboração do luto, mas com o devido cuidado de não torna-los demasiadamente longos (crônicos).
Vivenciar o luto significa entrar em contato com a dor da perda, e sua elaboração  exige tempo, aceitação e compreensão do ocorrido, normalmente isso se inicia uma semana depois, momento no qual a pessoa consegue pensar sobre o que aconteceu, é quando a pessoa diz que  "caiu a ficha”. Mas não devemos pensar somente no indivíduo enlutado, é necessário olhar para o grupo familiar, que pode estar vivendo uma crise diante da perda. A  crise exige reorganização e reconstrução dos papéis dentro da família, a perda altera as relações entre todos os membros do grupo e diante dessa vivência os envolvidos  podem não apresentar os recursos emocionais necessários para superá-la,  necessitando de ajuda para o restabelecimento de seu funcionamento.
Uma outra característica que dificulta a elaboração do luto é a falta de espaço para os enlutados viverem suas perdas, embora bem intencionados, os conhecidos usam frases como: “não chore, a vida é assim mesmo”, “foi melhor assim”, “ele estava sofrendo” , o que pode  inibir a pessoa enlutada de falar sobre sua dor e consequentemente  de entrar em contato com ela   e assim  aprender a lidar com toda sua angustia.   
Em nossa cultura não encontramos muitos espaços para falar sobre a morte e o morrer, sobre as perdas e os danos. Mas reclamar, queixar-se, lamentar é fundamental para o processo de elaboração do luto, por este motivo é necessário aceitar a ajuda oferecida e procurar um amigo ou confidente para falar sobre as dores, angústias e tristezas.  É  importante ainda compreender que se trata de um processo demorado e cheio de altos e baixos, a pessoa enlutada deve aceitar que haverá momentos mais difíceis e outros menos difíceis. 
O processo de enlutamento pode ser classificado em  luto normal e patológico, sendo que seis meses é o tempo médio para a pessoa se reestruturar, contanto é preciso lembrar que cada pessoa fará isso em seu próprio tempo e ritmo. Ficar atento e verificar se  pessoa enlutada espera a volta do ente querido que faleceu, ou uma recuperação espontânea de uma doença grave, pode ser indícios de que ela precisa de ajuda especializada para vivenciar este processo. Olhar para fotos, roupas e objetos pode ser saudável se isso ajuda na elaboração do luto, mas se isso prende a pessoa ao passado (irreversível) deve ser evitado a todo custo.
No processo de elaboração do luto é necessário evitar qualquer tipo de fuga ou esquiva, tais como ingerir bebida alcóolica, usar drogas ou tomar remédios, e até mesmo contar para si mesmo algumas “mentirinhas”, tal como imaginar que o ente querido esta viajando, pois isto gera uma esperança irreal, pois é sabido que a morte é irreversível.
Deve-se aceitar a raiva, o medo, a tristeza como parte do processo e que temos o direito de sentí-los. É importante se livrar-se  da culpa, imaginária ou real, e pedir ajuda quando os recursos pessoais estão escassos ou ineficientes.  E importante que a pessoa enlutada, assim que conseguir, se envolva em atividades esportivas ou tarefas que lhe causem prazer (ouvir a chuva, viajar, ver o por do sol, o nascer do sol), é importante  que compreenda que viver um eterno processo de luto não é demonstração de amor, pois o amor é libertador, produtor de felicidade, e muito contribui para o nosso desenvolvimento saudável, já o luto mal resolvido pode gerar depressão, ansiedade, estresse, raiva excessiva e inassertividade.

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